Resposta da fauna não-aquática a inundação sazonal na Amazônia, com ênfase especial em aves de sub-bosque
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Mario Eric Cohn Haft
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Torbjorn Haugaasen
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Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA
Resumo
Florestas alagáveis são ambientes extraordinários que ficam sazonalmente inundados durante o período de cheia dos rios da Amazônia. Espécies da fauna não-aquática habitam essas florestas, inclusive espécies tipicamente terrestres. Para lidar com a inundação da floresta, seria necessário colocar em prática algum tipo de comportamento ou possuir adaptações que favoreçam sua sobrevivência. Apesar de diversidade, a fauna de florestas alagáveis sofre por diferentes tipos de ameaças, como desmatamento, queimadas, hidrelétricas e mudanças climáticas. Promover o conhecimento do quanto ambientes alagáveis contribuem para a megadiversidade da Bacia Amazônia pode ajudar a definir estratégias de conservação para esse ambiente em especial. Definir quantas e quais espécies habitam as florestas alagáveis, incluindo espécies especialistas deste ambiente, é um primeiro passo importante, pois nem isso se encontra compilado na literatura. Portanto, no primeiro capítulo propomos uma revisão de literatura para atingir dois objetivos: (1) fornecer uma lista de todas as espécies da fauna não-aquática que habitam florestas alagáveis; e (2) compilar as respostas à inundação pela fauna não aquática. Para isso, fizemos o levantamento de estudos publicados e não publicados entre 1853 a 2023 em bibliotecas e plataformas online. Chegamos ao total de 11.513 espécies registradas em florestas alagáveis na Amazônia, e dessas, 290 espécies são especialistas de florestas alagáveis. As aves possuem o maior número de especialistas identificados como tal, com 156 espécies; mas isso reflete em parte uma falta de estudos de grupos mais diversos, como insetos, a nível de espécie. Reconhecemos dez tipos principais de respostas à inundação sazonal, sendo as três mais comuns: a migração vertical, a ocupação de substratos flutuantes e ovos submersos em estado dormente, este último comportamento colocado em prática por invertebrados. No segundo capítulo, definimos as aves como nosso grupo modelo para explorar os comportamentos em resposta à inundação sazonal. Acompanhamos aves em campo para tentar responder as seguintes perguntas: Diferentes indivíduos da mesma espécie e diferentes espécies todos respondem da mesma forma à inundação? Quais possíveis movimentos migratórios são realizados pelas aves? As áreas de vida mudam de tamanho conforme a sazonalidade de inundação? A proximidade da terra firme afeta a estratégia da ave em resposta a inundação? Para isso, selecionamos 20 espécies de aves, marcamos os indivíduos com anilhas coloridas ou rádios VHF e acompanhamos seus comportamentos conforme a subida da água. No geral, aves realizaram movimentos migratórios verticais, horizontais ou ambos simultaneamente. Também verificamos que as áreas de vida são menores durante a cheia e que os comportamentos podem variar conforme a proximidade da terra firme apenas para uma espécie terrestre de tinamídeo. Nossa conclusão geral é de que a fauna não-aquática pode responder a inundação natural de variadas formas, e que apesar parecerem ter alto grau de plasticidade, as espécies podem se tornar vulneráveis à mudanças drásticas e repentinas no ciclo natural de inundação. Por fim, ressaltamos que florestas alagáveis formam um ambiente fundamental para espécies não-aquáticas, inclusive espécies especialistas, e que, portanto, é fundamental que façam parte da agenda de conservação da biodiversidade.
Abstract:
Floodplain forests are extraordinary environments that are seasonally flooded during the Amazon's river flood season. Non-aquatic fauna species inhabit these forests, including typically terrestrial species. To cope with forest flooding, it would be necessary to implement some type of behavior or possess adaptations that favor their survival. Despite their diversity, the fauna of floodplain forests suffers from different types of threats, such as deforestation, fires, hydroelectric dams, and climate change. Promoting knowledge of how much floodplain environments contribute to the megadiversity of the Amazon Basin can help define conservation strategies for this particular environment. Defining how many and which species inhabit floodplain forests, including specialist species of this environment, is an important first step, as even this is not compiled in the literature. Therefore, in the first chapter we propose a literature review to achieve two objectives: (1) to provide a list of all non-aquatic fauna species that inhabit floodplain forests; and (2) to compile the responses to flooding by non-aquatic fauna. To this end, we surveyed published and unpublished studies from 1853 to 2023 in libraries and online platforms. We arrived at a total of 11,513 species recorded in flooded forests in the Amazon, and of these, 290 species are specialists of flooded forests. Birds have the largest number of identified specialists, with 156 species; but this partly reflects a lack of studies of more diverse groups, such as insects, at the species level. We recognized ten main types of responses to seasonal flooding, the three most common being: vertical migration, occupation of floating substrates, and submerged eggs in a dormant state, the latter behavior practiced by invertebrates. In the second chapter, we defined birds as our model group to explore behaviors in response to seasonal flooding. We followed birds in the field to try to answer the following questions: Do different individuals of the same species and different species all respond in the same way to flooding? What possible migratory movements are carried out by birds? Do home ranges change in size according to the seasonality of flooding? Does proximity to terra firme forest affect a bird's strategy in response to flooding? To investigate this, we selected 20 bird species, marked individuals with colored rings or VHF radios, and monitored their behavior as the water level rose. Overall, birds performed vertical, horizontal, or both simultaneous migratory movements. We also found that home ranges are smaller during floods and that behaviors can vary according to proximity to terra firme forest only for one terrestrial tinamou species. Our overall conclusion is that non-aquatic fauna can respond to natural flooding in various ways, and that despite appearing to have a high degree of plasticity, species can become vulnerable to drastic and sudden changes in the natural flood cycle. Finally, we emphasize that floodplains form a fundamental environment for non-aquatic species, including specialist species, and that, therefore, it is essential that they are part of the biodiversity conservation agenda.
