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People, plants, animals and other beings: a multi-perspective approach to Amazonian cultural landscapes

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Nas últimas décadas, pesquisas arqueológicas na Amazônia têm revelado amplas evidências da história humana antiga do bioma, marcada por notável diversidade cultural. Estudos arqueológicos e ecológicos demonstraram que populações amazônicas pré-coloniais transformaram profundamente os solos, a topografia e a composição vegetal de seus ambientes, levando ao reconhecimento das florestas amazônicas como paisagens domesticadas. Hoje, povos Indígenas e comunidades locais continuam a sustentar e enriquecer os legados dessa longa trajetória histórica por meio de modos de vida profundamente entrelaçados com as florestas. Essas comunidades percebem suas existências como intrinsecamente conectadas aos demais seres de suas paisagens, adotando uma visão de mundo que contrasta com o excepcionalismo humano típico do pensamento ocidental. Embora estudos recentes tenham revelado como as sociedades Indígenas da Amazônia moldaram e sustentaram ecossistemas saudáveis e diversos ao longo do tempo, essas mesmas sociedades destacam o papel essencial dos seres não humanos nesse esforço coletivo de construção de mundo. Esta tese parte da premissa de que seres humanos e não humanos na Amazônia moldam e sustentam paisagens culturais de maneira colaborativa. Ela examina essas relações em diferentes escalas temporais e espaciais, com foco especial no sítio arqueológico Ponta da Castanha, um mosaico de florestas culturais situado na Floresta Nacional de Tefé, na bacia do médio rio Solimões, na Amazônia Central. Um aspecto fundamental desta pesquisa é sua abordagem transdisciplinar e interepistemológica, que integra contribuições da arqueologia, ecologia, antropologia e perspectivas Indígenas. Em particular, esta tese buscou: (i) apresentar uma visão geral do uso de plantas alimentícias pelos povos Indígenas durante o Holoceno na região que hoje corresponde ao território brasileiro; (ii) investigar como e quando se formou o mosaico heterogêneo de florestas culturais do sítio arqueológico Ponta da Castanha; (iii) propor um framework inovador para a pesquisa socioecológica, por meio da construção de um modelo conceitual de domesticação na Amazônia inspirado em perspectivas Indígenas; e (iv) explorar a variação na estrutura, composição e espécies-chave nas redes de interações entre plantas, humanos e outros animais no mosaico florestal da Ponta da Castanha. Os resultados desta pesquisa indicam que: (i) desde o início da ocupação humana na Amazônia, as populações locais têm favorecido o uso de uma ampla variedade de espécies vegetais em suas práticas alimentares; (ii) as paisagens culturais de Ponta da Castanha seguiram trajetórias diversas, dinâmicas e altamente localizadas, provavelmente moldadas por uma variedade de práticas humanas ao longo do tempo e do espaço, durante pelo menos 3000 anos de ocupação na área; (iii) a adoção de um conceito ampliado de domesticação, fundamentado em ontologias Indígenas e, portanto, centrado em relações recíprocas e transformações entre seres, pode estimular o desenvolvimento de pesquisas ecológicas inovadoras que transcendam a dicotomia entre natureza e cultura; (iv) os padrões estruturais heterogêneos das redes multiespécies nas paisagens de Ponta da Castanha sugerem que a influência humana sobre essas paisagens é mais matizada do que a simples intensidade de manejo, e a agência dos seres não humanos possivelmente também desempenha um papel fundamental na estruturação das comunidades socioecológicas. Da combinação dos resultados desta tese surgem quatro proposições principais: (i) Na Amazônia, as comunidades vegetais do presente devem ser consideradas artefatos arqueológicos, pois estão entre os marcadores mais significativos da ação humana passada para as comunidades locais. Seguir essa orientação no delineamento, na amostragem em campo, e na análise e interpretação de dados em pesquisas arqueológicas tem o potencial de melhorar significativamente nossa compreensão das nuances espaciais e temporais da ação humana de longa duração na região. (ii) As comunidades humanas da Amazônia - tanto do passado quanto do presente - contribuem para a heterogeneidade da paisagem ao criar mosaicos caracterizados por grande diversidade funcional, variabilidade estrutural e comunidades multiespécies diversas. (iii) Na construção e manutenção das paisagens culturais amazônicas, a ação humana é inseparável da ação de outros seres – como plantas, animais e seres imateriais. A agência destes seres pode e deve ser analisada no estudo de paisagens domesticadas e sistemas socioecológicos. (iv) O suposto universalismo da ciência ocidental, e particularmente sua dicotomia natureza/cultura, limita nossa compreensão dos sistemas socioecológicos amazônicos. Um engajamento significativo com as epistemologias indígenas pode inspirar abordagens inovadoras e aprofundar nossa compreensão das redes complexas que constituem esses sistemas.

Abstract:

Over the last decades, archaeological research in Amazonia has uncovered extensive evidence of the biome's deep human history, marked by remarkable cultural diversity. Archaeological and ecological studies reveal that pre-colonial Amazonian populations thoroughly transformed soils, topography, and plant composition in their environments, leading to the recognition of Amazonian forests as domesticated landscapes. Today, Indigenous Peoples and local communities in Amazonia continue to uphold and enrich the legacies of this long-term history through lifeways deeply intertwined with local forests. These communities view their lives as intrinsically connected to the other beings in their landscapes, embracing a worldview that contrasts with the human exceptionalism characteristic of Western thought. While recent research has illuminated how Amazonian Indigenous societies shaped and sustained healthy and diverse ecosystems over time, these societies themselves emphasize the vital role of non-human beings in this shared world-building endeavor. This thesis builds on the idea that human and non-human beings in Amazonia collaboratively shape and sustain cultural landscapes. It examines these relationships across temporal and spatial scales, with a special focus on the Ponta da Castanha archaeological site, a mosaic of cultural forests located in the Tefé National Forest in the middle Solimões river basin, Central Amazonia. A defining feature of this research is its transdisciplinary and inter-epistemological approach, combining insights from archaeology, ecology, anthropology, and Indigenous perspectives. In particular, this thesis aimed to: (i) provide an overview of the uses of food plants by Indigenous Peoples throughout the Holocene within the region that is now Brazilian territory; (ii) investigate how and when the heterogeneous mosaic of cultural forests at the Ponta da Castanha archaeological site was formed; (iii) propose an innovative framework for socio-ecological research by constructing a conceptual model of domestication in Amazonia inspired by Indigenous perspectives; and (iv) explore the variation in structure, composition, and key species within plant-animal-human networks across the Ponta da Castanha forest mosaic. The results of this research indicate that: (i) since the beginning of human occupation in Amazonia, local populations have favored the use of a wide range of plant species in their foodways; (ii) the cultural landscapes of Ponta da Castanha have followed diverse, dynamic and very localized trajectories, likely shaped by a variety of human practices through time and space, during at least 3000 years of human occupation in the area; (iii) embracing a broader concept of domestication, grounded in Indigenous ontologies, and therefore focused on reciprocal relationships and transformations among beings, can foster innovative ecological research that transcends the traditional nature/culture dichotomy; (iv) the heterogeneous structural patterns of multispecies networks in the Ponta da Castanha landscapes suggest that human influence on these landscapes is more nuanced than mere management intensity, and non-human agency also likely plays a critical role in shaping the structure of socio-ecological assemblages. Combining the outcomes of this thesis, four major propositions emerge: (i) In Amazonia, current plant communities should be viewed as archaeological artifacts, as they are among the most meaningful markers of past human action for local communities. Following this orientation in the design, field sampling, analysis and data interpretation in archaeological research has the potential to significantly enhance our understanding of the spatial and temporal nuances of long-term human action in the region. (ii) Amazonian human communities - both past and present - contribute to landscape heterogeneity by creating mosaics characterized by diverse multispecies assemblages, functional diversity, and structural variability. (iii) In the construction and maintenance of Amazonian cultural landscapes, human agency is inseparable from the agency of other beings – such as plants, animals, immaterial beings. Their agency can and should be assessed in studies of domesticated landscapes and socio-ecological systems. (iv) The assumed universalism of Western science, particularly its nature/culture dichotomy, limits our understanding of Amazonian socio-ecological systems. Engaging seriously with Indigenous epistemologies can inspire innovative approaches and deepen our comprehension of the complex networks that constitute these systems.

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